SAF é a sigla para Sociedade Anônima de Futebol, que foi criada a partir da Lei 14.193/2021 e permitiu que clubes de futebol do Brasil pudessem ser transformados em empresas. Entenda todos os pontos sobre o assunto no texto abaixo.

Desde 2021, uma onda de clubes de futebol do Brasil aderiram à SAF. Entre eles, estão Botafogo, Cruzeiro e Vasco. Mas mais do que uma mudança no nome da estrutura e gestão, passando de associação civil sem fins lucrativos para empresarial, há grandes alterações na forma de tributação, bem como normas de governança, controle e meios de financiamento para a atividade futebolística.

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O que é SAF para o futebol e como funciona seu regime tributário?

Um dos principais pontos referente a taxação é que nos primeiros cinco anos, após a constituição, a SAF está sujeita ao pagamento mensal de um tributo unificado, limitado a 5% sobre as receitas mensais, exceto em transferências de atletas. Do sexto ano em diante, a alíquota cai para 4%, porém, incidirá sobre todas as receitas da empresa.

Em um primeiro momento, os clubes tinham receio de que a migração pudesse aumentar a carga de tributos pagos, pois, como associações civis, são isentos de diversos tributos como Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social Sobre Lucro Líquido (CSLL). Dessa maneira, em um modelo convencional de empresa, como sociedade anônima e limitada, teriam de pagar mais à Receita. 

Dessa forma, foi articulado esse regime de tributação especial por meio da SAF, que veio em substituição aos tradicionais. 

Como ficam as dívidas dos clubes de futebol?

Considerado um dos principais aspectos da mudança, as dívidas seguem com a associação civil — ou seja, não ficam sob responsabilidade da empresa criada. A SAF terá de contribuir com o pagamento dessas obrigações. Isso também ajuda nos desbloqueios judiciais dos ativos financeiros do clube, que poderiam estar travados por uma dívida.  

Como a associação perde quase todas as suas receitas operacionais, o clube-empresa tem duas opções para tratar do endividamento:

1º Regime Centralizado de Execuções

A Lei 14.193/2021 (Lei da SAF) criou um mecanismo chamado Regime Centralizado de Execuções, que possibilitou uma esteira para pagamento de credores de natureza cívil e trabalhista. Sendo assim, a empresa assume a responsabilidade de contribuir para o pagamento da dívida, com 20% de suas receitas mensais.

O prazo dado aos clubes, a princípio, é de seis anos para quitar as dívidas, podendo ser estendido por quatro anos caso 60% das pendências tenham sido pagas no primeiro período dado. 

Outra possibilidade aberta por esse regime é a chance de abater em pelo menos 30% das dívidas por meio de descontos.

2º Recuperação judicial

Normalmente usada por empresas em situação financeira crítica e que tenham relevância econômica à sociedade, a recuperação judicial também foi permitida à SAF. O que permitirá ao clubes-empresa renegociar dívidas com a mediação do poder público, para que os créditos sejam abatidos por descontos e pagos em novo prazo. A legislação possibilita também que o clube transfira contratos bilaterais e com jogadores da associação civil para o clube-empresa, sem que sejam envolvidos no acordo a ser negociado no decorrer da recuperação judicial.

Um exemplo recente é o conflito entre o Botafogo associativo e a Eagle Football, acionista majoritária da SAF do clube. A ala social pede na Justiça o ressarcimento de cerca de R$ 155 milhões — valor equivalente a 10% de um passivo em torno de R$ 1,5 bilhão — além da nomeação de um interventor judicial e restrições à venda de jogadores e distribuição de dividendos.

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Quais clubes brasileiros são SAF?

No Brasil, diversos clubes já abriram o caminho para adotar o sistema de administração como SAF. Da Série A do Campeonato Brasileiro estão os seguintes clubes:

  • Atlético-MG;
  • Bahia;
  • Botafogo;
  • Cruzeiro;
  • Fortaleza;
  • Vasco.

Red Bull Bragantino (não é uma SAF, e sim um clube-empresa, que tem como principal aliado a companhia de bebida energética). Além dos clubes da Série A, o futebol brasileiro já ultrapassou a marca de 100 SAFs em todas as divisões, com 117 clubes nesse modelo em 2025.

Clubes que podem virar SAF no Brasil: o cenário atualizado de 2025

O avanço das SAFs no Brasil não se limita aos grandes clubes de Série A. Em 2025, o país já supera a marca de 120 clubes que adotaram o modelo, distribuídos por 21 unidades da federação

Corinthians: entre a crise e o interesse de Ronaldo

O Corinthians vive um momento turbulento:

  • Presidente afastado por investigações;
  • Dívidas acumuladas;
  • Clima político instável.

Diante disso, o ex-jogador Ronaldo Fenômeno, dono da SAF do Cruzeiro, afirmou que a única saída viável seria a transformação do clube em SAF.

“É muita bagunça, muita dívida. A única saída que enxergo é a transformação em SAF”, disse Ronaldo em entrevista.

Corinthians deu o primeiro passo institucional para viabilizar uma SAF e o voto do sócio-torcedor, iniciando audiências públicas para reforma do estatuto em dezembro de 2025.

Desde 1º de dezembro de 2025, o Corinthians realiza audiências públicas para debater uma ampla reforma do estatuto, incluindo a possibilidade de adoção do modelo SAF e a ampliação do voto para o sócio-torcedor. O cronograma prevê nove sessões até fevereiro de 2026, com temas específicos como voto do Fiel Torcedor e regras para uma eventual SAF. Se a proposta for aprovada pelos conselheiros e, depois, em Assembleia Geral, as mudanças já valerão para a eleição presidencial de 2026.

Vasco: SAF em crise e intervenção judicial

O Vasco da Gama, um dos primeiros grandes clubes a se tornar SAF, enfrenta sérios problemas com a gestão da 777 Partners:

  • Queda de R$ 30 milhões no caixa em dois meses;
  • Dívida total de R$ 566 milhões;
  • Direitos da 777 suspensos pela Justiça.

O clube associativo (CRVG) reassumiu o controle da SAF temporariamente, enquanto a Justiça avalia os próximos passos no processo de recuperação judicial.

O relatório mais recente também destaca esforços da SAF em reorganização administrativa e investimentos nas categorias de base. Ainda assim, o momento é de atenção e incerteza.

Uberlândia: projeto SAF com investimento promissor

O Uberlândia Esporte Clube, tradicional time mineiro, se transformou em SAF após quase unanimidade em assembleia de sócios.

  • 90% das ações foram vendidas para a empresa Full Participações LTDA, comandada por Fábio Mineiro, ex-investidor da SAF do Athletic.
  • O aporte inicial é de R$ 2 milhões para quitar dívidas.
  • O investimento pode chegar a R$ 150 milhões em 15 anos, se o clube alcançar a Série A.

Atualmente na Série D do Campeonato Brasileiro, o Uberlândia quer iniciar um novo ciclo com estabilidade financeira e metas de crescimento esportivo a médio prazo.

SAF e a Reforma Tributária: como deve funcionar?

A Reforma Tributária sobre o consumo já foi incorporada à Constituição pela Emenda Constitucional nº 132, de 20 de dezembro de 2023. Em 2025, o foco está na regulamentação, por meio de leis complementares que vão definir as alíquotas do IVA dual (CBS/IBS) e os regimes específicos, como o do futebol profissional e das SAFs.

Em 16 de dezembro de 2025, a Câmara dos Deputados concluiu a votação do projeto de lei que regulamenta alguns pontos centrais da Reforma Tributária e do Comitê Gestor do IBS. O PL aprovado manteve a tributação atual das SAFs, em vez do aumento previsto na primeira lei complementar que regulamentou a Reforma.

Pela lei de alíquotas da reforma, a partir de 2027, as SAF pagariam uma alíquota total de 8,5% — sendo 4% referentes a IRPJ, CSLL e Previdência Social, 1,5% de CBS e 3% de IBS. Após acordo entre os partidos, porém, foi preservado o modelo vigente:

  • 3% para IRPJ, CSLL e Previdência Social,
  • 1% de CBS
  • e 1% de IBS.

Também por acordo, foi aprovada uma emenda de redação para estender as mesmas alíquotas às entidades desportivas, que inicialmente teriam uma redução de 60% em relação às alíquotas gerais ainda a serem definidas para toda a economia.

Por que a SAF foi incluída na Reforma Tributária?

A pressão dos clubes por um tratamento especial no futuro regime tributário conseguiu reunir até mesmo os times da Libra e da Liga Forte União, dois blocos originalmente rivais e pretendem estabelecer uma nova liga no futebol brasileiro. Os clubes pertencentes a esses grupos divulgaram comunicados a favor de uma emenda à proposta de reforma, buscando influenciar os parlamentares. E tiveram sucesso.

A inclusão da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) em regimes tributários específicos foi uma demanda dos clubes, pois havia a preocupação de que, se a redação da reforma aprovada na Câmara dos Deputados fosse mantida, as empresas responsáveis pela gestão do esporte de clubes de futebol teriam que pagar a alíquota integral do imposto.

Os senadores defendem a manutenção do Regime de Tributação Específica do Futebol, que unifica o pagamento de impostos em uma alíquota máxima, atingindo até 5% da receita mensal nos primeiros cinco anos. Vale ressaltar que clubes de futebol sem fins lucrativos já desfrutam de isenções tributárias.

As vantagens e desafios da transformação dos clubes em SAF no Brasil

Desde que a Lei nº 14.193/2021 entrou em vigor, o modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF) tem ganhado força entre os clubes brasileiros. A proposta é profissionalizar a gestão, atrair investimentos e reestruturar as finanças do futebol nacional. Mas, como todo modelo, ele traz vantagens e desafios importantes.

Vantagens da SAF

1. Atração de investimentos

Ao se tornar uma SAF, o clube pode vender parte das suas ações para empresas ou investidores. Isso permite a entrada imediata de recursos financeiros, o que ajuda a:

  • Quitar dívidas;
  • Reforçar o elenco;
  • Investir em estrutura (CTs, estádio, categorias de base).

2. Profissionalização da gestão

A SAF exige uma estrutura corporativa mais organizada. Isso significa:

  • Governança mais transparente;
  • Prestação de contas obrigatória;
  • Gestão voltada para resultado.

Esses aspectos aumentam a confiança de patrocinadores, parceiros e torcedores.

3. Regime tributário diferenciado

O modelo oferece alíquotas reduzidas e simplificadas. Nos primeiros cinco anos, o clube paga até 5% de imposto sobre suas receitas (exceto transferências de atletas). Depois disso, a alíquota cai para 4% — o que representa uma alternativa viável para clubes que perderiam isenções ao deixarem de ser associações civis.

Desafios do modelo SAF

1. Resistência interna

Muitos conselheiros, associados e até torcedores não aceitam facilmente a ideia de “vender o clube”. Há receio de perda de identidade, autonomia e representatividade da torcida nas decisões.

No Corinthians, por exemplo, mesmo com a crise financeira e institucional, há grande resistência à ideia de SAF.

2. Gestão do investidor

O sucesso da SAF depende diretamente da competência de quem assume o controle. O caso do Vasco ilustra bem isso:

  • A 777 Partners, investidora do clube, enfrentou problemas de má gestão;
  • Houve queda de liquidez;
  • A Justiça suspendeu os direitos da empresa, e o clube retomou o controle temporariamente.

O Botafogo é outro caso emblemático. A holding Eagle Football, que controla a SAF do clube, acumulou prejuízo bilionário e vive um conflito aberto com o Botafogo associativo, que pede ressarcimento milionário e intervenção judicial. Segundo o CEO da SAF, Thairo Arruda, esse cenário tem afetado diretamente negociações com atletas e operações financeiras, porque o mercado enxerga o clube como instável.

3. Riscos operacionais

Mesmo com investimentos, o futebol continua sendo um negócio volátil. As receitas dependem de:

  • Resultados esportivos;
  • Bilheteria;
  • Premiações;
  • Vendas de jogadores.

Se a gestão for mal feita, o risco de colapso financeiro continua existindo, mesmo sob o novo modelo.

Tributação de clubes de futebol: entenda como funcionam os impostos sobre premiações internacionais. SAF paga mais?

A boa fase dos clubes brasileiros na Copa do Mundo de Clubes 2025 trouxe à tona um tema fundamental para a gestão esportiva moderna: como funciona a tributação sobre prêmios recebidos no exterior por clubes de futebol?

A tributação de clubes de futebol incide sobre os valores recebidos como premiação em torneios internacionais, como a Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Em 2025, clubes brasileiros arrecadaram cerca de R$ 860 milhões, dos quais R$ 270 milhões foram pagos em impostos — quase 31,3% do total.

Quais impostos os clubes pagam sobre prêmios internacionais?

A carga tributária é dividida entre tributos cobrados no país do torneio (EUA) e tributos nacionais (Brasil). A seguir, entenda como funciona em cada jurisdição:

1. Tributação nos Estados Unidos (imposto na fonte)

Nos EUA, os clubes brasileiros pagaram 30% sobre o valor bruto da premiação, enquadrados na categoria FDAP (Fixed, Determinable, Annual or Periodical Income) — um imposto federal retido na fonte. Esse valor é automaticamente deduzido do prêmio recebido.

2. Tributação no Brasil (impostos sobre remessa)

Após a tributação americana, o dinheiro transferido para o Brasil sofre:

  • IOF (Imposto sobre Operações Financeiras): 1,1% sobre o valor líquido.
  • Impostos adicionais (somente no caso das SAFs).

Qual a diferença de tributação entre clubes associativos e SAFs?

Clubes Associativos (sem fins lucrativos)

Clubes como Palmeiras, Flamengo e Fluminense operam como associações civis sem fins lucrativos. Por isso, são isentos de impostos adicionais sobre premiações internacionais, desde que:

  • Não distribuam lucros;
  • Apliquem recursos em atividades esportivas;
  • Mantenham transparência contábil.

Contudo, esse modelo vem sendo questionado por autoridades fiscais, dado o volume de receitas e estrutura empresarial desses clubes. Há um crescente debate sobre a legitimidade do uso do modelo associativo no futebol profissional.

SAF – Sociedade Anônima do Futebol

O Botafogo, por ser uma SAF, não possui essa isenção. Está sujeito à Tributação Específica do Futebol (TEF), com uma alíquota de:

  • 5% sobre o valor líquido, após descontos do imposto americano e IOF.
  • Após 5 anos de constituição, essa alíquota cai para 4%.

Esse regime substitui tributos como IRPJ, CSLL, PIS, Cofins e contribuição previdenciária. É considerado um modelo mais simples, transparente e atrativo para investidores.

Comparativo dos clubes e tributos pagos (em milhões de dólares)

ClubeValor BrutoImp. EUA (30%)Valor LíquidoIOF (1,1%)Imp. BR (SAF)Tributos Totais
BotafogoUS$ 26.68 MiUS$ 8.01 MiUS$ 18.7 MiUS$ 0.20 MiUS$ 0.93 MiUS$ 9.15 Mi
FlamengoUS$ 27.71 MiUS$ 8.31 MiUS$ 19.4 MiUS$ 0.21 Mi-US$ 8.52 Mi
FluminenseUS$ 60.83 MiUS$ 18.25 MiUS$ 42.58 MiUS$ 0.47 Mi-US$ 18.72 Mi
PalmeirasUS$ 39.83 MiUS$ 11.95 MiUS$ 27.88 MiUS$ 0.31 Mi-US$ 12.26 Mi

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