Desaceleração da economia e PIB: como Selic e pauta fiscal se encontram no mesmo gráfico
A desaceleração da economia e o PIB voltaram ao centro do radar de empresas, investidores e formuladores de política econômica. Depois de um 2024 mais aquecido, os dados recentes mostram um crescimento menor em 2025, com o PIB avançando apenas 0,1% no terceiro trimestre e projeções menores para o ano. Não se trata de um apagão da atividade, mas de uma mudança clara de ritmo, que exige leitura cuidadosa dos números.
Entender o que está por trás da desaceleração da economia e do PIB é fundamental para quem precisa tomar decisões de médio e longo prazo. A combinação entre Selic em patamar elevado, inflação de serviços ainda pressionada e incertezas em torno da pauta fiscal está redesenhando o cenário de consumo, investimento e crédito no Brasil.
Ao longo deste conteúdo, vamos explicar como esse movimento acontece, por que ele é, em parte, fruto da política monetária, e de que forma as contas públicas entram na equação que define o ritmo de crescimento do Brasil.
O que é desaceleração econômica?
Desaceleração econômica é o nome dado ao processo em que a economia continua crescendo, porém em um ritmo mais lento do que vinha ocorrendo antes. Não é sinônimo de crise ou recessão, embora possa abrir espaço para elas se não houverem intervenções.
Na prática, a desaceleração aparece em indicadores como:
- PIB crescendo menos de um trimestre para outro
- Consumo das famílias perdendo força
- Investimentos privados sendo adiados
- Setores mais sensíveis ao crédito (comércio, serviços, construção) decrescendo na operação
No caso brasileiro, os números recentes contam essa história. No terceiro trimestre de 2025, o PIB avançou apenas 0,1% em relação ao trimestre anterior, abaixo dos 0,3% registrados entre o primeiro e o segundo trimestres. O consumo privado também cresceu somente 0,1%, abaixo das expectativas, indicando que as famílias estão mais cautelosas.
Uma forma simples de visualizar o conceito é comparar o ritmo de crescimento em anos consecutivos:
| Ano | Crescimento do PIB | Leitura econômica |
|---|---|---|
| 2024 | 3,40% | Economia aquecida, ainda com forte tração |
| 2025 | 2,2% (estimado) | Economia ainda cresce, mas em de forma lenta |
A economia não parou, mas está em um processo de acomodação. Esse movimento é, em boa parte, resultado da política monetária, nesse caso a Selic elevada para controlar a inflação, e das incertezas sobre o ambiente fiscal.
Por que acontece a desaceleração da economia
É importante compreender que a desaceleração da economia não é um evento aleatório. Ela é resultado das decisões de política econômica e das condições globais. No contexto atual, três forças ajudam a explicar o movimento:
- Política monetária restritiva (Selic elevada)
- Juros altos encarecem o crédito para empresas e famílias.
- Projetos de investimento são adiados ou cancelados.
- Compras de bens duráveis (como carros, imóveis e máquinas) perdem ritmo.
- Juros altos encarecem o crédito para empresas e famílias.
- Ajustes após um período de crescimento mais forte
- Em 2024, os segmentos que respondem à política monetária cresceram cerca de 4,5%.
- Em 2025, essa fatia deve avançar apenas 1,6%, uma queda de 2,9 pontos percentuais no ritmo de expansão.
- Essa diminuição é compatível com a intenção de reduzir pressões inflacionárias.
- Em 2024, os segmentos que respondem à política monetária cresceram cerca de 4,5%.
- Incertezas fiscais e institucionais
- Dúvidas sobre o equilíbrio das contas públicas, regras fiscais e reformas estruturais afetam a confiança.
- Proximidade com o início da transição de um novo sistema tributário.
- Empresas esperam maior previsibilidade para decidir se ampliam produção, contratam ou investem.
- Dúvidas sobre o equilíbrio das contas públicas, regras fiscais e reformas estruturais afetam a confiança.
Também é relevante observar o comportamento da demanda privada, que reúne consumo e investimento do setor privado. Em 2024, essa demanda cresceu 5,5%; em 2025, a projeção é de 1,8%, uma desaceleração de 3,7 pontos percentuais.
Em resumo, a desaceleração econômica é, hoje, uma combinação de juros altos para conter a inflação, incertezas político-econômicas e uma agenda fiscal em debate. O objetivo é esfriar a economia o suficiente para trazer a inflação à meta, sem provocar um tombo maior do que o necessário no PIB e no emprego.
Dados: Folha de São Paulo | Samuel Pessôa, pesquisador do BTG Pactual e do FGV IBRE e doutor em economia.
Qual a relação desse movimento com o PIB
O Produto Interno Bruto (PIB) é o termômetro mais conhecido da atividade econômica. Quando falamos em “desaceleração da economia”, estamos, na prática, descrevendo um PIB que cresce menos de um período para outro. A relação é direta:
- Se o PIB acelera: produção, renda e emprego tendem a avançar mais rapidamente.
- Se o PIB desacelera: a mesma produção aumenta pouco, a geração de renda e empregos é mais lenta, e as empresas ficam mais seletivas nos investimentos.
No caso recente do Brasil:
- De um lado, o PIB total ainda cresce.
- De outro, a componente cíclica da economia, que responde à taxa de juros (aproximadamente 70% do PIB), está perdendo impulso de 4,5% em 2024 para 1,6% em 2025.
Isso evidencia que a política monetária está funcionando exatamente na parcela da economia em que ela deveria atuar, que é no consumo, crédito, serviços e investimentos.
No entanto, também existem os setores que não respondem diretamente à política monetária. Agropecuária, indústria extrativa, aluguéis e serviços da administração pública têm dinâmicas próprias e podem ofuscar o que de fato ocorre no núcleo mais sensível da economia.
Veja a diferença:
| Componente do PIB | 2024 | 2025 (estimado) | Sensível à Selic? |
|---|---|---|---|
| Parte cíclica (70% do PIB) | 4,50% | 1,60% | Sim |
| Agropecuária | -3,70% | 10,60% | Pouco |
| Indústria extrativa mineral | 0,50% | 8,70% | Pouco |
Quando analisamos o PIB sem os setores menos sensíveis à política monetária, a desaceleração fica ainda mais nítida. É justamente esse núcleo mais sensível ao custo do crédito que o Banco Central monitora para definir o nível da Selic.
Em linhas gerais, a desaceleração da economia aparece no PIB como um crescimento menor, mas ainda positivo, com impacto mais forte na parte da economia que depende de crédito, confiança e expectativa de lucro futuro.
Como os dados recentes do PIB mostram a desaceleração da economia brasileira
Os dados mais recentes do IBGE deixam claro que o Brasil entrou em uma fase de crescimento mais fraco. No terceiro trimestre de 2025:
- O PIB cresceu 0,1% em relação ao trimestre anterior.
- No trimestre anterior, o crescimento havia sido de 0,3%.
- O consumo privado também avançou apenas 0,1%, abaixo do esperado.
Ou seja, tanto o lado da produção quanto o lado da demanda estão andando devagar.
Do ponto de vista da oferta, um destaque foi o grupo de “outros serviços”, que inclui serviços pessoais, restaurantes, bares, entretenimento e turismo, com alta de 0,2%. É um crescimento modesto para setores que costumam se beneficiar de renda e crédito.
Podemos sintetizar a fotografia recente da economia:
| Indicador | Resultado recente | Interpretação |
|---|---|---|
| PIB – 3º tri/25 vs. 2º tri/25 | +0,1% | Economia praticamente estável |
| PIB – 2º tri/25 vs. 1º tri/25 | +0,3% | Ritmo já moderado |
| Consumo privado – 3º tri/25 | +0,1% | Famílias cautelosas |
| Crescimento do PIB (ano fechado) 2024 | 3,40% | Ano de maior tração |
| Crescimento do PIB (projeção para 2025) | 2,20% | Desaceleração clara |
O quadro fica ainda mais interessante quando olhamos os setores que não respondem diretamente à política monetária: agropecuária e indústria extrativa. Em 2024, a agropecuária caiu 3,7% e a indústria extrativa cresceu apenas 0,5%. Em 2025, devem subir 10,6% e 8,7%, respectivamente.
Isso significa que, mesmo com ajuda desses setores, o crescimento total do PIB será menor em 2025 do que em 2024. A economia brasileira está em um processo de desaceleração, em grande parte induzido pela política monetária, enquanto a pauta fiscal e as perspectivas de médio prazo seguem no radar de empresas, investidores e do próprio Banco Central.
Selic e política monetária: por que os juros altos esfriam o PIB
A Taxa Selic é o principal instrumento de política monetária do Banco Central. Quando a inflação se afasta da meta, a reação típica é elevar a Selic para encarecer o crédito, desestimular o consumo e o investimento, e, assim, reduzir a pressão sobre os preços. Esse movimento, inevitavelmente, se traduz em desaceleração do PIB.
O mecanismo funciona em várias frentes:
- Crédito mais caro:
Empréstimos para consumo, capital de giro e financiamento de projetos ficam menos atrativos. - Valorização de aplicações financeiras de renda fixa:
Com juros altos, investir em títulos se torna mais rentável, deslocando recursos de projetos produtivos de maior risco. - Câmbio e expectativas:
Juros altos podem atrair capital externo, influenciar o câmbio e os preços de bens importados e exportados.
No cenário atual, a política monetária está evidentemente funcionando. A forte desaceleração da demanda privada mostra que famílias e empresas sentiram o aperto das condições financeiras.
Ao mesmo tempo, a inflação de serviços continua elevada:
- Inflação de serviços em torno de 6%;
- Serviços intensivos em trabalho com inflação próxima de 7% e tendência de alta.
Isso explica a manobra do Banco Central, que manteve a Selic elevada por mais tempo para garantir que a desaceleração da economia se traduzisse, de fato, em perda de força da inflação.
Enquanto a inflação estiver acima da meta e as expectativas desancoradas, a Selic tende a permanecer em um patamar restritivo, mantendo a economia em marcha lenta, ainda que positiva.
Pauta fiscal e expectativas: como as contas públicas influenciam a desaceleração
Selic não atua sozinha. A forma como o governo administra receitas, despesas, dívida pública e reformas estruturais também pesa na dinâmica de crescimento e na própria decisão sobre a taxa de juros.
Alguns canais de transmissão são centrais:
- Credibilidade das regras fiscais
Se o mercado acredita que o país conseguirá controlar o crescimento da dívida pública, a percepção de risco cai. Isso permite juros estruturais mais baixos no futuro. - Qualidade do gasto público
Gastos com investimentos em infraestrutura, educação e produtividade têm impacto diferente de gastos correntes sem contrapartida em crescimento potencial. - Reformas tributárias e regulatórias
Uma pauta fiscal que simplifica impostos, reduz litígios e dá previsibilidade às empresas tende a elevar o PIB potencial, o que facilita o trabalho da política monetária.
Quando a política fiscal é percebida como expansionista e pouco crível, o Banco Central precisa compensar com uma Taxa Selic mais alta para manter a inflação sob controle. Na prática, isso significa um ambiente de:
- Taxa de juros elevada por mais tempo
- Crescimento menor da demanda privada
- Desaceleração mais intensa da economia
Do ponto de vista do PIB, uma pauta fiscal confusa ou instável pode:
- Reduzir investimentos de longo prazo
- Elevar prêmios de risco e encarecer o custo de capital
- Reforçar o quadro de crescimento moderado, mesmo em anos em que alguns setores estejam em fase de expansão.
Por outro lado, um ambiente fiscal mais previsível tende a abrir espaço para queda estrutural da Selic, permitindo que a política monetária seja menos restritiva sem perder controle sobre a inflação. A combinação de política fiscal responsável e juros em queda é o cenário mais favorável para retomar um bom ritmo de crescimento do PIB.
Perspectivas para 2026: queda da Selic, inflação e PIB
O comportamento da economia em 2025 abre caminho para uma mudança de fase em 2026. Com a desaceleração já evidente nos dados do PIB e da demanda privada, a expectativa é que:
- A inflação convirja gradualmente para a meta;
- A inflação de serviços recue de patamar próximo a 6% para algo em torno de 5%;
- O Banco Central identifique, nas projeções, condições para iniciar um ciclo de queda da Selic.
O ponto de virada tende a ser consolidado à medida que:
- Os dados do quarto trimestre apontem recuo ou estabilidade da atividade;
- As projeções de inflação para os quatro trimestres à frente se alinhem firmemente à meta.
Nesse contexto, o Comitê de Política Monetária (Copom) poderá começar a reduzir a Selic, possivelmente já nas primeiras reuniões de 2026. A queda, no entanto, deve ser:
- Gradual, para não reaquecer a economia rápido demais;
- Condicional à manutenção de uma pauta fiscal minimamente responsável;
- Orientada pelos dados, tanto de atividade quanto de inflação.
Para o PIB, isso significa:
- 2025 ainda marcado por desaceleração (crescimento em torno de 2,2%);
- 2026 com possibilidade de leve retomada do crescimento, à medida que o crédito se torne menos caro e a confiança melhore;
- No médio prazo, juros mais baixos, uma política fiscal mais organizada e a Reforma Tributária em andamento podem ajudar a aumentar o potencial de crescimento do país.
O principal desafio é calibrar a transição. Se os juros caírem rápido demais, há risco de a inflação voltar a pressionar; se ficarem altos por tempo excessivo, a desaceleração pode se transformar em estagnação ou recessão, com impacto mais forte sobre o emprego e a renda.
Como empresas e investidores podem se preparar para a desaceleração da economia
Em um cenário de desaceleração da economia, PIB em crescimento mais fraco, Selic ainda elevada e pauta fiscal em constante debate, empresas e investidores precisam ajustar suas estratégias. Alguns pontos-chave ganham relevância:
- Gestão de caixa e endividamento
- Reforçar reservas de liquidez.
- Renegociar prazos e custos de dívidas mais caras.
- Evitar alavancagem excessiva em um ambiente de juros altos.
- Reforçar reservas de liquidez.
- Revisão de portfólio de investimentos
- Priorizar projetos com retorno mais previsível e prazos menores.
- Reavaliar investimentos que dependem fortemente de crédito ou de forte expansão da demanda.
- Priorizar projetos com retorno mais previsível e prazos menores.
- Foco em eficiência operacional
- Aumentar produtividade e reduzir desperdícios.
- Investir em tecnologia e automação que reduzam custos estruturais.
- Aumentar produtividade e reduzir desperdícios.
- Atenção à política fiscal e à reforma tributária
- Monitorar mudanças em tributos setoriais e incentivos.
- Antecipar impactos da reforma tributária sobre margens, preços e cadeias produtivas.
- Monitorar mudanças em tributos setoriais e incentivos.
Para investidores, o ambiente combina:
- Juros ainda elevados, que tornam ativos de renda fixa atrativos;
- Mercado acionário seletivo, no qual setores mais sensíveis ao ciclo de juros podem sofrer mais no curto prazo, mas ganhar fôlego à medida que a Selic comece a cair;
- Importância da diversificação, equilibrando risco e retorno entre diferentes classes de ativos.
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