Acordo Mercosul-UE: o que é e o que muda para o Brasil
O Acordo Mercosul-UE (União Europeia) representa um marco histórico na geopolítica econômica global, consolidando-se como uma das maiores áreas de livre comércio do planeta. Formalizado em sua plenitude no início de 2026, o tratado conecta dois blocos que, somados, representam cerca de 20% do PIB mundial e um mercado consumidor superior a 700 milhões de pessoas.
Mais do que um simples pacto tarifário, o acordo é um instrumento de integração profunda que abrange pilares políticos, de cooperação e, fundamentalmente, comerciais.
Entenda tudo sobre o acordo entre Mercosul e União Europeia neste conteúdo. Saiba os principais pontos do acordo, quais os setores beneficiados, a linha do tempo das ações e muito mais.
O que é o acordo Mercosul-UE?
O Acordo Mercosul-UE é um pacto de parceria entre os países do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai) e a União Europeia para criar um marco moderno de relacionamento entre os blocos — combinando comércio, cooperação e diálogo político. Na prática, ele estabelece regras para reduzir barreiras e ampliar a previsibilidade nas trocas de bens e serviços, além de tratar de temas como compras governamentais, facilitação de investimentos, propriedade intelectual e mecanismos de governança do relacionamento.
Um ponto importante é que o acordo não é um documento único. Ele foi estruturado em instrumentos paralelos: o EMPA, um acordo de parceria mais amplo, e o iTA, um acordo comercial interino, desenhado para antecipar benefícios comerciais enquanto o processo de ratificação do acordo completo segue seu rito.
Em janeiro de 2026, o avanço institucional ganhou tração e o Conselho da União Europeia autorizou a assinatura do EMPA e do iTA, abrindo caminho para a formalização do texto e os próximos passos até a plena aplicação do acordo.
Por que isso importa para empresas brasileiras?
A tendência é que o acordo mobilize três frentes ao mesmo tempo:
- Preço e competitividade: queda gradual ou imediata, em alguns itens, de tarifas no mercado europeu.
- Regras do mercado: exigências de origem, rastreabilidade e padrões técnicos influenciam quem realmente consegue usar a preferência tarifária.
- Estratégia comercial: o acordo reposiciona o eixo Mercosul-UE em um mundo mais protecionista, no qual barreiras voltaram a ser um instrumento de pressão econômica.
Histórico das negociações e por que o acordo demorou
As negociações entre Mercosul e União Europeia começaram em 1999 e atravessaram diferentes ciclos políticos, crises econômicas e mudanças de prioridade nos dois blocos. A demora não foi motivada apenas por questões burocráticas, mas sim por conflitos reais sobre agro, indústria, padrões regulatórios, ambiental e clima.
- Na UE, o temor recorrente é a competição de commodities agropecuárias com produtores europeus, o que gerou pressões por salvaguardas, monitoramento e gatilhos de proteção.
- No Mercosul, o cuidado é com a abertura a produtos industriais europeus, exigindo prazos longos e calibragem para setores sensíveis.
- E, no plano de fundo, cresceram as discussões sobre sustentabilidade, desmatamento e condicionalidades ambientais ligadas ao comércio.
O salto mais recente ocorreu quando as partes fecharam o conteúdo negociado e, em seguida, a UE avançou com uma arquitetura de proteção ao agro europeu. Em 17 de dezembro de 2025, Conselho e Parlamento Europeu chegaram a acordo provisório sobre regras de salvaguardas bilaterais para o setor agroalimentar — exatamente para reduzir resistências internas e acelerar a assinatura.
Em janeiro de 2026, o Conselho da UE autorizou formalmente a assinatura dos instrumentos (EMPA e iTA), consolidando o sinal verde institucional para que o acordo entre em prática. Confira abaixo a linha do tempo:

Quais as diretrizes do acordo Mercosul-UE?
As diretrizes do acordo são fundamentais para garantir que a abertura comercial não ocorra de forma desordenada. O texto baseia-se no princípio da assimetria em favor do Mercosul, o que significa que o bloco sul-americano terá prazos mais longos para reduzir suas tarifas de importação em comparação com os prazos imediatos ou curtos exigidos da União Europeia.
Na parte comercial, a diretriz central é a redução gradual de tarifas sobre ampla base de bens e serviços. Uma síntese citada é:
- O Mercosul deve zerar tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
- A UE deve eliminar tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.
Esses percentuais, porém, dependem de uma série de ações e medidas. O desenho do acordo combina:
1️⃣ Desgravação tarifária com assimetria e prazos longos para sensíveis
Setores sensíveis, especialmente industriais no Mercosul e agro na UE, tendem a ter cronogramas, cotas e salvaguardas.
2️⃣ Cotas tarifárias para produtos agropecuários
Alguns itens entram com tarifa reduzida ou zero dentro de uma quota, e fora dela seguem regras menos vantajosas. É uma forma de “abrir com freio”.
3️⃣ Salvaguardas e monitoramento
A UE estruturou regras para suspender temporariamente preferências se importações agrícolas sensíveis gerarem dano ou distorção de mercado, com procedimentos mais rápidos e gatilhos debatidos politicamente.
4️⃣ Facilitação de comércio, serviços e compras governamentais
Além de tarifas, entram temas como remoção de barreiras a serviços (incluindo digitais e financeiros, em termos gerais), facilitação de investimentos e acesso a licitações públicas — o que pode abrir oportunidades para empresas com capacidade técnica e compliance.
5️⃣ Sustentabilidade e compromissos ambientais
O acordo inclui capítulo de comércio e desenvolvimento sustentável, com compromissos relativos a temas ambientais e trabalhistas e mecanismos de governança/participação
O que muda com esse acordo?
A implementação do acordo altera drasticamente o cotidiano das empresas e o fluxo de caixa das operações de comércio exterior. A mudança mais imediata é a previsibilidade tributária. Exportadores brasileiros que antes lidavam com tarifas de até 20% para entrar no mercado europeu agora operam com um cronograma de redução que chega a zero em diversos itens.
No âmbito burocrático, ocorre a simplificação aduaneira. O acordo prevê a digitalização de processos e o reconhecimento mútuo de certificações, o que reduz o Custo Brasil, relacionado ao tempo de mercadoria parada em portos. Para o consumidor final, a mudança será sentida na diversidade e no preço de produtos importados, como vinhos, queijos e maquinários de alta tecnologia, que se tornarão mais acessíveis.
| Área de Impacto | Antes do Acordo | Com o Acordo |
|---|---|---|
| Tarifas Industriais | Altas e protecionistas | Redução progressiva até 0% |
| Agronegócio | Cotas restritas e sobretaxas | Ampliação de cotas e fim de barreiras |
| Padrão Ambiental | Exigência unilateral da UE | Compromisso bilateral monitorado |
| Investimentos | Incerteza jurídica relativa | Proteção mútua e regras da OMC+ |
Além disso, o acordo promove uma mudança de paradigma produtivo. Para competir ou colaborar com as empresas europeias, a indústria brasileira está sendo forçada a adotar tecnologias de Indústria 4.0 e padrões de governança ESG (Environmental, Social, and Governance), elevando o nível de competitividade global do país.
Como o Brasil é beneficiado?
O Brasil é, proporcionalmente, o maior beneficiário do acordo devido à escala de sua produção agrícola e ao potencial de sua indústria de base. Estimativas do Ministério da Fazenda indicam que o acordo pode gerar um incremento de mais de R$ 500 bilhões no PIB brasileiro nos próximos 15 anos.
Acesso a um mercado grande e com alto poder de compra
O acordo conecta dois grandes blocos econômicos, somando cerca de 700 milhões de pessoas, com relevância econômica expressiva. Para exportadores, isso amplia o potencial de monetização quando a empresa consegue superar as barreiras de entrada.
Vantagem tarifária em itens onde o Brasil é forte
O texto oficial destaca ganhos de acesso preferencial para produtos de interesse do Brasil, e fontes de síntese sobre o acordo citam carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose entre itens com perspectiva de redução ou eliminação tarifária.
Efeito escudo em tempos de protecionismo
Com tarifas mais altas e instabilidade em outros mercados, o acordo funciona como uma forma de reduzir a dependência de um único destino. A própria UE vem tratando o acordo como estratégico em um mundo de tarifas e rivalidades comerciais.
Possíveis ganhos de dentro para fora
A importação mais barata de máquinas, equipamentos e insumos pode aumentar a produtividade das cadeias brasileiras, desde que as empresas planejem bem o impacto concorrencial e o timing de investimento.
Onde o Brasil mais tende a capturar valor
- Agro com diferenciação e rastreabilidade.
- Indústria com nicho e qualidade.
- Serviços e projetos com capacidade de atender requisitos e contratos.
Quais produtos serão beneficiados pelo acordo Mercosul-UE?
O benefício tarifário atinge uma gama vasta de produtos, divididos entre aqueles que terão tarifa zero imediata e aqueles protegidos por cotas.
Agronegócio brasileiro
- Suco de laranja e frutas: A tarifa, que chegava a 15%, será zerada. O Brasil já é líder mundial, e o acordo consolida essa hegemonia.
- Café solúvel: O fim da tributação permite que o Brasil concorra em igualdade com processadores europeus.
- Carnes: Terão acesso através de cotas substanciais com tarifas reduzidas ou nulas, representando bilhões em novas receitas.
- Etanol: O biocombustível brasileiro ganha espaço como peça-chave na descarbonização da matriz energética europeia.
Industriais e de consumo
Pelo lado da importação e produtividade, os produtos beneficiados incluem:
- Maquinário industrial: Redução imediata de custos para modernização de fábricas brasileiras.
- Setor automotivo: Peças e componentes terão redução gradual, facilitando a integração de veículos produzidos no Brasil com tecnologia europeia.
- Vinhos e azeites: Produtos europeus de alta qualidade terão preços reduzidos, estimulando o mercado interno de consumo.
Quais os setores beneficiados?
Embora o impacto seja transversal, alguns setores econômicos experimentam um salto quantitativo e qualitativo imediato com a vigência do acordo.
Setor Agroindustrial
Este é o principal em termos de volume. O setor deixa de ser apenas um fornecedor de matéria-prima para se tornar um player de produtos processados. A indústria de alimentos e bebidas ganha margem para investir em marcas próprias no exterior.
Setor de Serviços e Tecnologia
Com a abertura das compras públicas e a harmonização de dados, empresas de TI e Software brasileiras podem prestar serviços para governos europeus. O setor de engenharia e serviços profissionais também se beneficia da facilitação de vistos de negócios e reconhecimento de diplomas.
Setor Químico e Farmacêutico
O acesso a insumos europeus mais baratos e a cooperação em pesquisa e desenvolvimento (P&D) fortalecem a indústria química brasileira. A harmonização de normas da Anvisa com as agências europeias acelera o lançamento de medicamentos e biotecnologia.
Setor Têxtil e Calçadista
Com o fim das alíquotas de importação na Europa, o design e o couro brasileiro ganham competitividade frente aos produtos asiáticos, aproveitando o apelo de sustentabilidade que o mercado europeu valoriza.
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Quais são os próximos passos?
Após a aprovação política e a assinatura do texto final em 2025/2026, o acordo entra na fase de ratificação parlamentar. Diferente de acordos simples, este possui uma natureza mista, exigindo aprovação em diferentes esferas.
Os próximos passos essenciais são:
- Aprovação no Parlamento Europeu: O passo mais ágil, que permite a entrada em vigor da parte comercial de forma provisória.
- Ratificação pelos Congressos Nacionais: No Brasil, o texto precisa ser aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal.
- Implementação das listas de exceção: Empresas e governos devem ajustar seus sistemas alfandegários para as novas alíquotas que mudam anualmente.
- Criação do Comitê de Monitoramento: Órgão bilateral que fiscalizará o cumprimento das cláusulas ambientais e trabalhistas.
A expectativa é que, até o final de 2026, os principais benefícios tarifários já estejam sendo sentidos pelos operadores de comércio exterior. Para as empresas brasileiras, o momento agora é de adequação técnica. Para isso, é fundamental revisar cadeias de suprimentos, obter certificações europeias e buscar parceiros comerciais no continente europeu para aproveitar a janela de oportunidade que se abre.
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