Acordo Mercosul-UE aprovado: o que muda para setores e economia em 2026
O Acordo Mercosul-UE foi finalmente aprovado pelo Conselho da União Europeia no dia 9 de janeiro de 2026, encerrando uma maratona diplomática de 26 anos. A decisão formalizada em Bruxelas abre caminho para a assinatura oficial do tratado, agendada para o dia 17 de janeiro no Paraguai. O pacto cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, conectando 720 milhões de consumidores e representando cerca de 20% da economia global.
A aprovação histórica contou com 21 votos a favor entre os 27 países do bloco europeu, superando a forte resistência liderada pela França e por setores agrícolas protecionistas. A mudança de postura de países como a Itália foi decisiva para atingir a maioria qualificada necessária. Para líderes como o presidente Lula e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o tratado não apenas fortalece o comércio, mas reafirma o multilateralismo em um cenário global fragmentado.
A oficialização deste marco tem data e local definidos: a assinatura está agendada para o dia 17 de janeiro no Paraguai, país que exerce a presidência rotativa do Mercosul neste semestre. A cerimônia deverá contar com a presença de líderes de ambos os lados do Atlântico, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
Embora o acordo tenha sido celebrado por governos e setores industriais como um avanço necessário, ele surge em um contexto de polarização. Enquanto o texto era aprovado em gabinetes, agricultores na França e na Polônia protestavam nas ruas, temendo a concorrência dos produtos sul-americanos. Ainda assim, a conclusão desta etapa representa uma inflexão na política externa do Mercosul, prometendo modernizar o arcabouço normativo do bloco e integrá-lo definitivamente às cadeias globais de valor mais sofisticadas.
Principais marcos da aprovação em 2026:
- Data da aprovação europeia: 9 de janeiro de 2026.
- Data da assinatura: 17 de janeiro de 2026 (Paraguai).
- Votação na UE: 21 votos a favor (maioria qualificada atingida).
- Países contrários: França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda.
- Magnitude: Mercado de 718 a 720 milhões de pessoas e PIB combinado de US$ 22,4 trilhões.
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Como funcionará a redução de tarifas e prazos do Acordo do Mercosul-UE
A implementação do acordo não ocorrerá de forma súbita, mas sim através de um cronograma meticulosamente planeado para permitir a adaptação das economias locais. Segundo o texto final negociado, a lógica predominante é a da “assimetria de prazos”. Isso significa que a União Europeia, por ser uma economia mais madura, abrirá o seu mercado mais rapidamente do que o Mercosul.
O Mercosul compromete-se a eliminar tarifas sobre 91% dos bens importados da Europa num período de até 15 anos. Em contrapartida, a União Europeia libertará as tarifas para cerca de 95% dos bens importados do bloco sul-americano num prazo mais curto, de até 12 anos. Esta diferença cria “janelas de adaptação” distintas: enquanto os setores industriais do Mercosul ganham tempo para internalizar a concorrência, os exportadores sul-americanos acedem ao mercado europeu de forma mais célere.
Especialistas em comércio exterior descrevem o mecanismo de redução como um sistema em “cascata”. As tarifas não desaparecem do dia para a noite em todos os setores; elas caem uma percentagem, estabilizam por um período, e voltam a cair até chegarem a zero no final do cronograma estipulado.
Fases de desgravação tarifária
Para facilitar a compreensão, o cronograma pode ser dividido em três momentos-chave de impacto económico, conforme detalhado nas análises de mercado:
- O “Dia 1” (Curto Prazo): Assim que o acordo entrar em vigor (após as ratificações iniciais), ocorre a queda imediata de tarifas para produtos menos sensíveis e para aqueles onde já existe forte interesse de troca. O setor de frutas e diversos produtos industriais e insumos necessários para a produção local beneficiam-se quase instantaneamente.
- A Fase Intermédia (4 a 10 anos): Este é o período em que a indústria sente os maiores efeitos. Bens de capital, como máquinas, equipamentos industriais, produtos químicos e autopeças, terão as suas tarifas zeradas progressivamente. O objetivo é reduzir o custo de produção (o chamado “Custo Brasil”) e modernizar o parque fabril.
- O Longo Prazo (15 a 18+ anos): Reservado para os setores mais sensíveis que necessitam de proteção prolongada para não sofrerem choques de mercado, como a indústria automóvel.
Cronograma por setor específico do Acordo do Mercosul-UE
Abaixo, apresentamos uma visualização dos prazos estipulados para atingir a tarifa zero, baseada nos dados técnicos do acordo:
| Setor / Produto | Prazo para Tarifa Zero | Detalhes |
|---|---|---|
| Bens Industriais Gerais | Imediato a 10 anos | Inclui máquinas e químicos para modernização industrial. |
| Vinhos e Destilados | Gradual (até 12 anos) | Redução progressiva para forçar competitividade com produtos europeus. |
| Autopeças | 10 a 15 anos | Transição para integrar cadeias de fornecimento. |
| Carros a Combustão | 15 anos | Proteção prolongada para a indústria montadora local. |
| Veículos Elétricos | 18 anos | Prazo estendido para fomentar o desenvolvimento tecnológico local. |
| Novas Tecnologias | 25 a 30 anos | Inclui setores emergentes como o hidrogénio. |
É importante notar que, mesmo com a redução tarifária, existem mecanismos de defesa comercial. Se um produto europeu, como um automóvel ou um vinho, entrar no mercado com um preço excessivamente baixo que prejudique a indústria local, ou se houver um aumento súbito de volume importado, podem ser acionadas cláusulas de salvaguarda para reequilibrar a concorrência temporariamente.
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Setores beneficiados no Brasil e no Mercosul com o acordo coma a UE
A nova dinâmica comercial estabelecida pelo acordo altera profundamente a competitividade de diversos setores da economia sul-americana. Ao conectar o Mercosul a um mercado de alto poder aquisitivo, o tratado gera oportunidades distintas para o campo e para a cidade, equilibrando o aumento das exportações agrícolas com a possibilidade de reindustrialização por meio de tecnologia acessível.
O agronegócio brasileiro desponta como um dos grandes vencedores, embora com nuances importantes. O acordo elimina tarifas sobre uma vasta gama de produtos que o Brasil já exporta com excelência. O setor de fruticultura, por exemplo, é apontado como um beneficiário imediato (“Dia 1”), ganhando competitividade instantânea nas prateleiras europeias. Outros itens como café solúvel, óleos vegetais e pescados também verão as barreiras tarifárias desaparecerem, permitindo uma expansão direta de receita.
No entanto, para os produtos considerados “sensíveis” pelos europeus — como carnes (bovina, suína e de aves), açúcar e etanol — o livre comércio não será irrestrito. Nestes casos, o acordo estabelece um sistema de cotas de exportação. O Mercosul poderá vender volumes significativos com tarifa zero ou reduzida, mas o que exceder esse limite continuará sujeito às taxas normais. Essa foi a solução diplomática encontrada para vencer a resistência dos agricultores da França e da Polônia, garantindo acesso ao mercado sem desestabilizar a produção rural europeia.
A indústria nacional, por sua vez, vislumbra um cenário de modernização. A narrativa de que a indústria seria prejudicada é contestada por dados que mostram o benefício na importação de bens de capital. Com a eliminação de tarifas sobre máquinas, equipamentos industriais de alta precisão e produtos químicos avançados — muitos sem similar nacional —, o custo de investimento para as fábricas brasileiras cairá drasticamente.
Especialistas avaliam que esse acesso a tecnologia europeia mais barata é crucial para aumentar a produtividade da indústria brasileira (o chamado “catch-up” tecnológico). Além disso, setores exportadores de manufaturados terão regras de origem mais favoráveis para integrar cadeias globais de valor.
Serviços e compras governamentais representam outra fronteira aberta pelo acordo. De forma inédita, empresas do Mercosul poderão participar de licitações públicas na União Europeia, e vice-versa, em condições de igualdade com fornecedores locais. Isso abre um mercado trilionário para prestadores de serviços brasileiros nas áreas de engenharia, arquitetura, tecnologia da informação e consultoria, ao mesmo tempo que promete trazer mais eficiência e menores custos para as contratações públicas no Brasil.
Quadro resumo de impactos por setor
Para facilitar a visualização de quem ganha o quê, destacamos os principais efeitos esperados:
| Setor | Impacto Principal | Detalhes da Oportunidade |
|---|---|---|
| Fruticultura e Café | Acesso Imediato | Eliminação de tarifas logo no início da vigência, ampliando margens. |
| Carnes e Açúcar | Acesso via Cotas | Volumes garantidos com tarifa preferencial, exigindo alta conformidade sanitária. |
| Indústria Fabril | Redução de Custos | Importação de máquinas e insumos químicos europeus sem imposto. |
| Serviços | Novos Mercados | Abertura recíproca em licitações e segurança jurídica para investimentos. |
| Consumidor | Preço e Variedade | Acesso facilitado a vinhos, azeites, queijos e farmacêuticos europeus. |
Confira a matéria da UE falando sobre o acrodo clicando aqui.
Salvaguardas, cotas e exigências ambientais do acordo Mercosul-UE
A aprovação do acordo só foi possível graças à inclusão de mecanismos rigorosos de proteção, desenhados para acalmar os ânimos dos setores mais protecionistas da Europa. O tratado é classificado como de “nova geração”, o que significa que ele vai muito além da simples redução de impostos, incorporando um complexo sistema de regras sanitárias, ambientais e de defesa comercial.
O Mecanismo de Reequilíbrio, popularmente conhecido como “freio de emergência”, foi um dos pontos cruciais negociados na reta final, em dezembro de 2025. Segundo as regras aprovadas, a União Europeia tem o direito de voltar a aplicar tarifas sobre produtos do Mercosul caso sejam detectadas distorções de mercado que ameacem os produtores locais.
Conforme detalhado nas negociações recentes, esse mecanismo possui gatilhos objetivos:
- Gatilho de Volume: Se a entrada de um determinado produto do Mercosul aumentar mais de 5% num período de três anos;
- Gatilho de Preço: Se o preço final do produto sul-americano ficar mais de 5% mais barato do que o equivalente europeu.
Essas cláusulas, defendidas por líderes como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, garantem que a abertura comercial não destrua a agricultura familiar europeia por meio de uma concorrência considerada desleal.
O sistema de Cotas é outra ferramenta central deste acordo. Enquanto a maioria dos produtos terá livre comércio (tarifa zero ilimitada), os itens considerados “sensíveis” — como carne bovina, aves, açúcar e etanol — estarão sujeitos a limites quantitativos. Na prática, isso significa que o Brasil poderá exportar uma quantidade fixa (ex: X mil toneladas de carne) com tarifa reduzida ou zerada. Tudo o que ultrapassar esse volume continuará a pagar as tarifas normais de importação, que são elevadas. Esse modelo protege o mercado europeu de uma “inundação” de commodities brasileiras, ao mesmo tempo que garante ao Mercosul um acesso preferencial que antes não existia.
As exigências ambientais e sanitárias representam, talvez, o maior desafio para os exportadores brasileiros. O acordo estabelece que todos os produtos devem cumprir rigorosamente os padrões da União Europeia. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, enfatizou que o pacto traz “salvaguardas robustas”, assegurando que o comércio não incentive o desmatamento ou a violação de direitos laborais.
Especialistas alertam para o risco das chamadas barreiras não tarifárias. Mesmo sem imposto, um produto pode ser barrado se não comprovar, através de sistemas de rastreabilidade complexos, que foi produzido de acordo com as normas ambientais (como o Acordo de Paris) e sanitárias exigidas. O descumprimento dessas regras pode levar à suspensão das preferências comerciais.
Por outro lado, o acordo também prevê garantias estratégicas para a Europa, como a isenção de impostos na exportação de matérias-primas críticas do Mercosul, como o lítio, essencial para a transição energética e produção de baterias, reduzindo a dependência europeia de outros fornecedores globais.
Acordo Mercosul-UE: reações políticas e cenário internacional
A aprovação do acordo desencadeou uma onda de reações contrastantes que expõem a complexidade do atual momento geopolítico. Se nos corredores diplomáticos de Bruxelas e Brasília o clima foi de celebração e alívio, nas estradas rurais da Europa a resposta foi marcada por pneus queimados e tratores a bloquear rodovias. O tratado tornou-se um espelho das tensões entre a necessidade de integração econômica global e as pressões protecionistas domésticas.
Para as lideranças do Mercosul, a validação do texto foi recebida como uma vitória da persistência diplomática. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, foi enfático ao declarar que se tratava de um “dia histórico para o multilateralismo”. Em comunicado oficial, Lula destacou que a união dos dois blocos — somando um PIB de US$ 22,4 trilhões — é a resposta correta a um cenário internacional de crescente isolacionismo e unilateralismo. Na Argentina, o governo de Javier Milei, através do presidente do Senado Federico Pinedo, também celebrou a decisão como um “passo decisivo” para a prosperidade da região, mostrando um raro alinhamento político no bloco sul-americano em torno do tema.
Na Europa, a divisão ficou evidente. O chanceler alemão, Friedrich Merz, foi uma das vozes mais ativas a favor do acordo, classificando-o como um sinal de “soberania estratégica”. Para a Alemanha e para a Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, o pacto é uma ferramenta vital para reduzir a dependência econômica da China e garantir o fornecimento de matérias-primas essenciais, como o lítio sul-americano, fundamental para a indústria de baterias e carros elétricos.
Além disso, a adesão tardia, mas crucial, da Itália foi determinante. A primeira-ministra Giorgia Meloni apoiou o texto após garantir a inclusão de salvaguardas robustas e fundos de compensação, argumentando que o acordo ajuda a blindar a Europa contra as incertezas comerciais geradas por outras potências, numa clara alusão às tarifas norte-americanas.
Opositores e protestos marcaram o outro lado da moeda. A França, historicamente o maior foco de resistência devido ao seu forte setor agrícola, liderou o voto contrário no Conselho Europeu, acompanhada por Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda. Embora não tenham conseguido formar uma minoria de bloqueio suficiente para vetar o texto, a insatisfação transbordou para as ruas.
Agricultores franceses, polacos e belgas organizaram protestos massivos. Em Paris e Varsóvia, o temor é que a entrada de produtos do Mercosul, supostamente produzidos com regras ambientais e trabalhistas menos rígidas, promova uma concorrência desleal que inviabilize a agricultura familiar europeia. “Não queremos comida barata que destrói o nosso campo”, foi um dos motes ouvidos nas manifestações que cercaram cidades europeias na semana da aprovação.
O tabuleiro geopolítico
O acordo não é apenas comercial; é uma peça de xadrez geopolítico. Analistas apontam três fatores que aceleraram a aprovação europeia após 25 anos:
- O Fator China: A Europa precisa diversificar os seus fornecedores e mercados consumidores para não ficar refém da economia asiática.
- O Fator Trump: Com o retorno de políticas protecionistas nos EUA, a UE viu-se obrigada a fortalecer laços com outros parceiros democráticos no Sul Global.
- Recursos Estratégicos: O acesso direto às reservas minerais da América do Sul é visto como questão de segurança nacional para a transição energética europeia.
Assim, o acordo nasce sob o signo do pragmatismo: uma aposta econômica necessária, mas politicamente custosa para os governos europeus que terão de gerir a insatisfação interna nos próximos anos.
Desafios da ratificação e entrada em vigor
A aprovação política em Bruxelas e a iminente assinatura no Paraguai, embora representem marcos diplomáticos, não significam que o acordo entrará em vigor na sua totalidade imediatamente. Especialistas em comércio exterior alertam que, após os apertos de mão em Assunção no dia 17 de janeiro, inicia-se uma nova e complexa etapa burocrática e legislativa: o processo de ratificação.
O caminho institucional é longo porque o tratado foi classificado juridicamente como um “acordo misto”. Isso implica que ele não depende apenas da aprovação das instituições centrais da União Europeia (Comissão e Conselho), mas também precisa ser validado individualmente pelos parlamentos nacionais de todos os 27 Estados-membros — e, em alguns casos, até por assembleias regionais.
Segundo análises de mercado, o risco atual não é de o acordo fracassar totalmente, mas de enfrentar um calendário prolongado. Jackson Campos, especialista em comércio exterior ouvido pelo InfoMoney, resume a situação: “Aprovaram, mas o ‘jogo’ ainda não acabou”. A arquitetura jurídica escolhida abre uma trilha de ratificações que pode durar anos, sujeita a obstruções políticas em países onde a resistência agrícola é forte, como na França ou na Bélgica.
A solução interina: vigência comercial antecipada
Para contornar a demora da ratificação completa, a União Europeia deverá aplicar o chamado Acordo Interino. Este mecanismo permite que a parte comercial do tratado — ou seja, a redução de tarifas e quotas de exportação — entre em vigor provisoriamente logo após a aprovação pelo Parlamento Europeu, sem ter de esperar pelo “sim” de todas as casas legislativas nacionais.
De acordo com o cronograma previsto:
- Assinatura: Ocorre em janeiro de 2026.
- Parlamento Europeu: Vota o texto nos meses seguintes.
- Vigência Provisória: Aprovado no Parlamento Europeu, as tarifas começam a cair (o “Dia 1” comercial).
- Ratificação Completa: Ocorre ao longo dos anos seguintes para validar os pilares políticos e de cooperação.
As quatro barreiras no horizonte
Apesar do otimismo, a tramitação enfrenta obstáculos reais. Analistas identificam quatro tipos principais de entraves que podem atrasar ou complicar a implementação plena:
- Entrave Político: A agricultura e a pauta ambiental continuam a centralizar o debate. Países contrários podem tentar usar o Tribunal de Justiça da UE para suspender a ratificação ou atrasar votações estratégicas.
- Entrave Institucional: O modelo de “acordo misto” dá poder de veto a parlamentos locais. Basta uma região autônoma descontente para travar a validação final do tratado em todo o bloco.
- Entrave Jurídico: Questionamentos sobre a base legal do acordo e a competência da Comissão Europeia podem gerar incerteza jurídica e litígios.
- Entrave Operacional (Barreiras Não Tarifárias): Mesmo com o acordo assinado, o Brasil precisa superar desafios técnicos. Exigências de rastreabilidade, regras de origem e padrões sanitários podem funcionar como barreiras invisíveis se o país não se preparar adequadamente.
No lado do Mercosul, o processo também exige aprovação nos Congressos Nacionais. Embora haja consenso entre os governos atuais, o ambiente legislativo pode apresentar resistências pontuais de setores industriais que temem a concorrência europeia ou de grupos que questionam os impactos na soberania econômica.
Portanto, para as empresas brasileiras, a mensagem é de preparação imediata, mas com a consciência de que a abertura total do mercado será um processo gradual, fatiado e sujeito a intensas negociações políticas nos próximos meses.
Oportunidades de investimento e o impulso para reformas estruturais com o acordo do Mercosul-UE
A dimensão do acordo Mercosul-União Europeia ultrapassa largamente a simples troca de mercadorias. Para economistas e especialistas em relações internacionais, o tratado funciona como uma “âncora de estabilidade” e um poderoso catalisador para a atração de investimentos estrangeiros diretos (IED). Ao alinhar as regras do bloco sul-americano aos padrões europeus, o Brasil e os seus vizinhos passam a oferecer uma segurança jurídica inédita, tornando-se destinos muito mais atrativos para o capital global num momento de reconfiguração das cadeias de suprimento.
O “efeito bumerangue”, citado pelo embaixador Marcos Troyjo, ex-negociador do acordo, ilustra bem esta dinâmica. Segundo Troyjo, a abertura comercial expõe a economia nacional a um novo nível de competição. Isso gera uma pressão positiva interna — o tal efeito bumerangue — que obriga o país a melhorar o seu próprio ambiente de negócios para sobreviver e prosperar.
Neste cenário, o acordo atua como um incentivo externo para que o Brasil acelere reformas estruturais. Para que a indústria brasileira possa competir de igual para igual com os produtos europeus (que entrarão sem tarifa), o governo brasileiro sentir-se-á pressionado a:
- Reduzir a carga tributária sobre a produção;
- Desburocratizar processos administrativos;
- Investir em infraestrutura logística para escoar a produção.
Sem essas reformas domésticas, a indústria local poderia sofrer com a concorrência. Portanto, o acordo é visto pelo mercado financeiro como uma “trava de segurança” que impede retrocessos na política econômica e força a modernização do Estado.
As decisões de “Sourcing” e Investimento também sofrerão alterações drásticas. Com a garantia de acesso ao mercado europeu, empresas multinacionais podem decidir instalar fábricas no Brasil para exportar para a Europa com tarifa zero. Este movimento é estratégico num mundo onde a Europa procura reduzir a dependência da Ásia (“de-risking”). O Mercosul posiciona-se, assim, como um parceiro confiável para o friendshoring — a prática de levar a produção para países aliados e democraticamente estáveis.
O setor de compras governamentais reforça essa oportunidade. Ao permitir que empresas europeias participem em licitações no Brasil (e vice-versa), espera-se um aumento na transferência de tecnologia e na eficiência dos serviços públicos. Projetos de infraestrutura, saneamento e energia renovável no Brasil poderão receber know-how e capital europeu com menos barreiras, dinamizando obras que muitas vezes esbarram na falta de financiamento ou capacidade técnica.
O ciclo virtuoso do investimento
A expectativa é que o acordo gere um ciclo virtuoso em três etapas:
- Adesão Normativa: o Brasil adota padrões internacionais (ISO, normas ambientais), melhorando a reputação do país.
- Segurança Jurídica: regras claras atraem investidores de longo prazo, interessados em infraestrutura e indústria, não apenas em capital especulativo.
- Ganhos de Produtividade: a importação de máquinas europeias baratas moderniza o parque fabril, permitindo que o Brasil exporte produtos com maior valor agregado, e não apenas commodities.
Por fim, o acordo é a alavanca que faltava para a reindustrialização do Brasil, desde que o dever de casa — as reformas internas — seja feito em compasso com o cronograma de desgravação tarifária.
Perguntas Frequentes (FAQ) sobre o acordo Mercosul-UE
Para esclarecer as principais dúvidas sobre o tratado, reunimos as respostas para as perguntas mais buscadas sobre o tema, com base nas informações confirmadas até janeiro de 2026.
Quando o acordo Mercosul-UE entra em vigor?
Embora a aprovação política tenha ocorrido em 9 de janeiro de 2026 e a assinatura esteja marcada para o dia 17 de janeiro, a vigência plena não é imediata. O acordo divide-se em duas etapas de vigência:
- Vigência Provisória (Comercial): A redução de tarifas e as cotas de exportação devem começar a valer logo após a aprovação pelo Parlamento Europeu, o que se espera que aconteça nos meses seguintes à assinatura.
- Vigência Definitiva: Os aspectos políticos e de cooperação do tratado só entram em vigor após a ratificação pelos parlamentos nacionais dos 31 países envolvidos (27 da UE + 4 do Mercosul), um processo que pode levar anos.
O preço dos carros importados vai cair imediatamente com o acordo Mercosul-UE?
Não. O consumidor não verá uma queda abrupta nos preços dos automóveis europeus no curto prazo. O acordo prevê uma desgravação tarifária lenta para proteger a indústria automobilística instalada no Mercosul.
- Carros a combustão: A tarifa cairá gradualmente ao longo de 15 anos até chegar a zero.
- Carros elétricos: O prazo é ainda maior, de 18 anos, para incentivar o desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil.
- Autopeças: A redução ocorrerá entre 10 e 15 anos.
O que o Brasil ganha com o acordo Mercosul-UE?
Os principais benefícios para a economia brasileira incluem:
- Acesso a Mercado: Isenção de tarifas para produtos agrícolas (frutas, café, óleos) num mercado de alto poder de compra.
- Modernização Industrial: Possibilidade de importar máquinas, equipamentos e tecnologia europeia sem imposto (em prazos de 4 a 10 anos), aumentando a produtividade das fábricas nacionais.
- Atração de Investimentos: A segurança jurídica do acordo tende a atrair capital estrangeiro para infraestrutura e produção local (“friendshoring”).
Existem desvantagens ou riscos para o Brasil com o acordo Mercosul-UE?
Sim, há desafios que exigem atenção.
- Barreiras Não Tarifárias: O rigor das normas ambientais e sanitárias europeias pode impedir exportações se os produtores brasileiros não conseguirem comprovar a rastreabilidade e a sustentabilidade dos seus produtos.
- Competição Industrial: Setores menos competitivos da indústria nacional enfrentarão a concorrência de produtos europeus. Para mitigar isso, foram negociados prazos longos de adaptação.
- Mecanismo de Reequilíbrio: A UE pode suspender benefícios e reimpor tarifas se as importações do Mercosul crescerem de forma súbita e ameaçarem a produção europeia.
Quais países fazem parte do acordo Mercosul-UE?
O tratado envolve os dois blocos:
- Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
União Europeia: Os 27 estados-membros, incluindo potências como Alemanha, França, Itália e Espanha.
